“O jornalismo investigativo está morrendo”, diz diretor de “Spotlight”

Foto: divulgação
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Com seis indicações ao Oscar, filme dirigido por Tom McCarthy exalta a relevância da profissão e alerta para sua decadência. “Seria maravilhoso se as pessoas percebessem que essa instituição está sendo dizimada”, diz o cineasta ao site de VEJA

Em 1976, o filme Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, cravou seu lugar entre os grandes clássicos do cinema sobre jornalismo. Ganhador de quatro estatuetas no Oscar, o longa acompanha a reportagem de Carl Bernstein e Bob Woodward, do jornal The Washington Post, sobre o escândalo político de Watergate, que terminou com a renúncia do presidente Richard Nixon. Desde então, poucos filmes com a imprensa como tema foram tão relevantes a ponto de figurar entre os indicados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Por isso Spotlight: Segredos Revelados se destaca entre os indicados ao Oscar de 2016.

O longa filia-se à melhor tradição dos filmes sobre jornalismo e é o primeiro sobre o assunto, durante os anos 2000, a ser tão bem colocado na premiação da Academia, com seis indicações, entre elas de melhor filme e diretor para Tom McCarthy. Verdade que produções como Frost/Nixon (2008) e Boa Noite e Boa Sorte (2005) também foram bem na premiação, porém ambas mostram o trabalho de exímios entrevistadores, que conseguem informações privilegiadas. Não é o caso de Spotlight.

O filme de McCarthy segue o passo a passo do extenuante trabalho da equipe do jornal The Boston Globe chamada “Spotlight”, dedicada a investigações longas, que podem durar meses ou até anos – luxo que poucas publicações no mundo ainda conseguem sustentar. Em 2001, um novo diretor de redação assumiu o comando do jornal. Martin Baron (Liev Schreiber, da série Ray Donovan), que vinha de experiências no Miami Herald, Los Angeles Times e The New York Times, foi quem sugeriu que o time fosse mais fundo na denúncia contra o Padre John Geoghan.

Judeu, de fora de Boston, uma cidade fortemente católica, Baron não temia o poder da Igreja Católica. O editor Ben Bradlee Jr. (John Slattery, de Mad Men) – filho de Ben Bradlee, editor do Washington Post na época de Watergate – apoiou, e a equipe liderada por Walter Robinson (Michael Keaton) e composta por Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) começou a escarafunchar o assunto. Logo, descobriram que não se tratava de apenas um padre, mas dezenas, e que havia um sistema de acobertamento dos casos. Os ataques terroristas de 11 de setembro atrasaram a publicação da reportagem, que acabou sendo editada em várias partes em 2002. A partir dali, revelaram-se centenas de outros casos de abuso sexual na Igreja Católica, no mundo todo.

Em 2003, o conjunto de reportagens ganhou o Pulitzer.

Em entrevista ao site de VEJA, o diretor do longa afirma ter esperança de que mais pessoas que virem o filme contem suas histórias. “O cinema é poderoso”, diz. Além da nobreza de dar voz a possíveis vítimas, McCarthy também quer que o longa celebre a importância do jornalismo, profissão afetada (para o bem e para o mal) por inovações tecnológicas e pelo imediatismo que a internet propicia.

“O jornalismo investigativo está morrendo. Seria maravilhoso se as pessoas percebessem que essa instituição está sendo dizimada. E que comecem a pensar por que isso está acontecendo e quão importante o jornalismo é para todos nós”, diz o cineasta. “Falamos com muitos consultores sobre o estado da profissão hoje em dia, mas nossa decisão foi não incluir isso no filme. E que o melhor seria mostrar um grande caso de investigação, um bom exemplo”, conta. Na trama, apenas um rápido momento mostra outro drama vivido pelos jornalistas, o receio de serem alvo de demissões, realidade de redações cada vez mais enxutas.

O ator John Slattery faz coro com o diretor. “O jornalismo descobre conspirações, instituições que estão levando vantagem sobre as pessoas. Se não temos isso, nossa sociedade sofre”, diz. “O imediatismo da internet não afeta apenas o jornalismo. Tudo é imediato: é bom ou ruim, polegar para cima ou para baixo. Isso não é jornalismo. ?? só opinião. Como dá para publicar, as pessoas acham que são escritoras. Mas há uma diferença entre isso e o jornalismo. ?? o que o filme mostra.”

A arte imita a vida – Um dos trunfos de Spotlight é que o ritmo da investigação foi respeitado, sem que se torne tedioso para o espectador. Cada personagem tem sua importância – tanto que os produtores decidiram inscrever todos os atores como secundários, em vez de destacar algum como protagonista. Por isso, entre os indicados ao Oscar, Mark Ruffalo e Rachel McAdams figuram nas categorias de ator e atriz coadjuvante.

“Nossa ideia era que fosse um filme de conjunto. Foi um desafio”, diz McCarthy. “O longa tem seu ritmo particular. ?? meu estilo. Todo o mundo acha que meus filmes começam devagar. Eu gosto porque acho que dá tempo ao público de respirar e se conectar. Acho que vale a pena. O ritmo contribuiu para o mostrar com realismo a engrenagem de uma investigação, mas, como pulávamos de um personagem para outro, há muita energia.”

Uma das preocupações do diretor e roteirista, junto com seu parceiro de trabalho Josh Singer, era tentar evitar os momentos grandiosos, de cinema, para focar nas descobertas diárias e no investimento árduo dos repórteres. “Queríamos algo sem adornos”, afirmou. “Nossa abordagem inicial era: vamos fazer este filme para os jornalistas. Se eles assistirem e disserem: ‘é isso o que fazemos, é o que somos’, seremos bem-sucedidos. Não é um trabalho tão romântico. ?? duro, não é colarinho branco.”

Os atores tiveram a chance de passar algum tempo com as pessoas que interpretaram. O editor Ben Bradlee Jr., por exemplo, foi uma espécie de consultor de Spotlight. “Ele apoiou tanto que não me senti pressionado ao interpretá-lo, mesmo quando ele estava no set me vendo”, conta Slattery. Mas sua ideia não foi fazer uma imitação. “Nossa intenção era mostrar como eles agiam ao apurar a história, não tanto como se moviam, esse tipo de coisa.” O ator, que foi criado católico em Boston e chegou a ser coroinha, não tinha ideia da dimensão do escândalo da igreja. “Todo o mundo tinha ouvido rumores. Mas era uma coisa aqui, outra acolá.”

Liev Schreiber confessou ter ficado intimidado antes de conhecer Martin Baron. “Ouvi tantas coisas sobre ele antes de encontrá-lo: sobre como era inescrutável, intenso, não demonstrava emoção. E quando eu o conheci, ele foi incrivelmente generoso”, conta o ator. “Mas vi logo que ele estava incomodado, pensando qual era a coisa certa a fazer com aquele ator sentado na sua frente. Percebi que, no fim, enxergou o potencial do filme e quis ajudar o máximo possível na esperança de que ele pudesse articular algo sobre a importância do jornalismo investigativo.” Schreiber já tinha certa familiaridade com a questão do abuso sexual por padres por seu trabalho como Ray Donovan, protagonista da série de mesmo nome, exibida no Brasil pela HBO. O personagem é de Boston e sofreu abuso de um padre quando criança. “Como ator, fui capaz de fazer justiça a meu personagem.”

Quem assiste ao filme percebe que o roteiro tenta separar o escândalo da instituição e a fé de seus frequentadores. Em diversos momentos, vítimas que são entrevistadas pelos jornalistas narram como elas se esforçam para manter sua espiritualidade e desassociar a imagem de Deus e dos padres pedófilos.

O diretor, criado católico, é pessimista em relação a sua religião, porém acredita que o Papa Francisco tem feito progressos. “Mas ele está recebendo muitas críticas. Muitos cardeais e bispos americanos estão falando contra. Para mim esse é o problema. Não sei se este único homem bondoso e amável da Argentina pode mudar isso. Não sei se vejo a Igreja Católica se transformando. As pessoas me perguntam qual vai ser a resposta da Igreja em relação ao filme. E eu digo: zero. Zero.”

Em compensação, a resposta da Academia de Hollywood foi muito boa. Apesar de O Regresso, filme de Alejandro G. Iñárritu, e Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller, serem líderes em número de indicações ao Oscar, Spotlight continua no páreo como um dos favoritos ao prêmio principal da noite. Se assim for, a vitória não será imerecida.

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